quinta-feira, 23 de março de 2017

Ibama fecha frigoríficos no sul do Pará

Operação Carne Fria


Produtores rurais e donos de frigoríficos do Pará estão bastante preocupados com a mais recente atuação do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, o Ibama. Pela operação Carne Fria, deflagrada no dia 21 em quase todo o sul do Pará, o órgão embargou a produção de 15 empresas - sendo duas da JBS -, onde teriam sido encontrados indícios de utilização de gado comprado de áreas embargadas por conta de crimes ambientais, como o desmatamento.
O tom intransigente adotado nas ações pegou de surpresa o setor, que deve sofrer perdas de R$ 20 milhões por dia de inatividade, com um efeito a longo prazo previsto para afetar até mesmo a oferta de carnes nas prateleiras dos supermercados.
O Sindicato de Produtores Rurais de Xinguara foi o primeiro a se posicionar contra a metodologia adotada pelo Ibama na operação que faz clara alusão à também recente e análoga operação Carne Fraca, da Polícia Federal. De acordo com o presidente da entidade, Joel Lobato, que ocupa a direção da Federação da Agricultura e Pecuária do Pará (Faepa), a reclamação geral é a de que não houve autuações, cobrança de documentos ou mesmo de informações sobre a forma como cada frigorífico monitora a origem dos animais que compra. “Não quiseram saber nada, chegaram, fecharam e pronto”, afirma. Ele diz ter tentado sensibilizar um gerente do Instituto em Marabá, mas que saiu com a impressão de que não há preocupação com os efeitos negativos dessa atuação na Economia do Estado. “É a decretação da pena de morte do setor produtivo rural inteiro.”
Outro problema, segundo Joel, é o critério adotado pelo Ibama para paralisar os frigoríficos. “Em uma área grande de 6 mil hectares de pasto com 50 hectares de embargo, por exemplo, o gado estaria em tese todo impróprio. Se nem o Ibama tem como saber qual e se o rebanho estava na área embargada, como que a indústria saberá?”, questiona.

PREJUÍZO

Ele mensura que cada dia sem atividades gera um prejuízo de cerca de R$ 2 milhões para cada empresa. “Sem contar que isso pode afetar os contratos de distribuição para as grandes redes de supermercado, em médio prazo”, avalia. Como o Pará tem um excesso de produção, quanto mais tempo a indústria fica parada, maior o acúmulo de gado vivo para o abate. “Se normalmente a gente não dá conta de abater o que tem, imagina agora. A alternativa será vender para fora, e aí o Estado deixa de recolher, são empregos perdidos. É o caos”, conjectura.

Prejuízo para o Estado seria milionário

Engenheiro agrônomo, produtor rural e consultor de origem de matéria-prima sustentável, Jordan Carvalho garante que calcula por baixo quando diz que, por dia, a região sul do Estado abate cerca de 8 mil cabeças/dia, o que movimenta na economia entre R$ 16 milhões e 20 milhões em insumos. Ele lembra que, desde 2009, quando o Ministério Público do Estado fechou Termo de Ajuste de Conduta (TAC) com praticamente todas as empresas em atuação, é visível o esforço do setor em se adequar às exigências. “É complicado chegar assim, com a providência tomada e de forma arbitrária. A manutenção dos TACs não justifica a forma como essa operação foi feita”, explica. Se a carne brasileira já está mal vista no mercado externo por uma questão sanitária, pós-“Carne Fraca”, agora chega a fama de que também há problemas na questão ambiental. “Existem autuações decorrentes de compras de 2013, que o próprio Ibama não conseguiu monitorar. Há empresa que abate 800 mil animais embargada por problemas com pouco mais de 100 deles. É o tipo de coisa que reforça o discurso das ONGs ambientalistas que querem desmoralizar o setor”, comenta.



Deputados estaduais criticam ação do Ibama no sul do Estado

A operação Carne Fria também repercutiu na Assembleia Legislativa. Gesmar Rosa, do PSD, e Sidney Rosa, do PSB, saíram em defesa da produção estadual e criticaram a truculência do Instituto.
“Entendemos que alguns tecnocratas federais estão cometendo excessos nas ações. Estamos num momento econômico perigoso no mundo todo. Temos bronca com madeira e agora com a carne? Daqui a pouco mexem no pescado”,pondera Gesmar.
Mais incisivo, Sidney Rosa não perdoou o Ibama. “A gente vive um paradoxo no Brasil, o real e o da lua. Ibama na lua, nós na terra”, alfineta. Afirma que a Frente Parlamentar pelo Desenvolvimento está atenta à situação para tomar providências para reabrir os frigoríficos. “É o agronegócio que está salvando o país e também o Pará”, reforçou.

A reportagem procurou a assessoria de imprensa do Ibama em Belém, que afirmou estar na sede do órgão em Brasília a responsabilidade por um posicionamento sobre o assunto. Por email, entramos em contato com eles, mas não houve retorno até o fechamento desta edição. (Carolina Menezes/Diário do Pará - FONTE: Carolina Menezes/Diário do Pará)